«Queres que eu te chame nomes?»
Ela corou. Juro.
Eu repeti, na voz que se usa com crianças muito novas e que
todas as raparigas apreciam nesta ou naquela outra altura das suas
vidas:
«Minha malandra... tu queres que eu te chame nomes...»
Ela fez que sim com a sua cabecinha suburbana.
E comecei: «Tu és uma desavergonhada...»
E ela, primeiro: «Não.»
E depois, acelerando: «Sou! Sou sim!»
Eu: «Ordinária!»
Ela: «Não... não... não...»
E eu sem estar já à espera, mantendo um bom ritmo de
bombada, entretido comigo mesmo, um bocado nas tintas para ela.
E ela: «O que é que me chamaste?!»
E eu, como se tivesse decorado o nome dum rio: «Ordinária...»
Ela: «Sou! Sou sim! Sou uma ordinária!»
Aqui aproxima-se inexoravelmente — nenhum outro advérbio
serve — da histeria pretendida.
Eu estou quase a vir-me, graças à excitação dela, que me põe
de cabeça perdida. Com uma cabeça daquelas, ainda por cima.
Não tenciono prosseguir. Só rematar.
Mas ela quer mais. Abre as narinas todas, muito mais do que
lhe seria exigido, arregala os olhos e fita-me como se me quisesse
matar: «Sou uma porcalhona!»
Eu, começando a entusiasmar-me, tal o contágio: «És uma
porcalhona que se farta de foder!»
Ela: «Sou! Sou!»
Eu: «Fodelhona!»
Ela: «Mais! Chama-me mais! Trata-me mal que eu venho-me!»
Eu, de cabeça igualmente perdida, incapaz de encontrar mais
sinónimos, ou nomes ainda mais reprováveis, limito-me a um
simples e pouco significativo: «Puta!»
Pára tudo.
Pronto. Já ninguém nesta casa se vai vir.
Ela diz: «Não; isso não.»
Eu, verme: «Desculpa...»
«Não», repete, começando a arranjar a roupa, «Isso é que
não.»
Está mais composta do que no momento em que meti conversa
com ela. O sorte.
Comecei a rir. Foi obra santa, porque perdi o tesão todo.
Perguntei-lhe se havia alguma lista que eu pudesse consultar.
Ela: «Detesto as pessoas que abusam... detesto!» Está à procura
das cuecas, o que lhe retira alguma credibilidade.
E «vaca»? E permitido «vaca»? ou só porca?
Ela, não sei quê, de dar um dedo e tomarem-lhe logo a mão
inteira, ainda não encontrou as cuecas.
Eu acho que a minha casa come cuecas. Chupa-as pelas frestas
entre as tábuas, para dar de comer ao caruncho. Ê uma espécie de
negócio.
«Que é que tens contra as putas? Tenho uma tia que foi puta
quando era nova!» (E tenho).
«Vai chamar puta à tua mãe!» Está zangada. Porque é que as
mulheres não têm cuidado com as cuecas, elas que são tão
obcecadas por tudo o mais?
«Não, deixa — já percebi. A ti devo tratar-te por porcalhona,
ordinária e fodelhona, mas se quiser tratar alguém por puta devo
entrar em contacto com a senhora minha mãe, apesar da senhora
minha mãe saber a todas as horas do dia, onde param as suas
cuecas — ou, melhor, as cuecas dela...»
Ela veste os «jeans» sobre o rabo nu. Rabo bom. Pena.
Podíamos ter sido amigos. Podíamos ter sido... partenaires!
Sai de minha casa e lembra-se que não tem dinheiro para o
táxi.
Bate fortemente.
«Para aonde será desta vez?», pergunto eu, arrastando-me
para a porta. «Para que subúrbio longínquo?» Tenho de começar a
andar com raparigas aqui do centro...
E para longíssimo. Dois contos. Toma que é para aprenderes.
Ela recebe o dinheiro como se fosse um direito humano.
«Amanha pago-te.»
E eu não resisto a dar uma facadinha também: «Deixe lá... não
tem importância...»
in "O amor é fodido" - Miguel Esteves Cardoso
Ela corou. Juro.
Eu repeti, na voz que se usa com crianças muito novas e que
todas as raparigas apreciam nesta ou naquela outra altura das suas
vidas:
«Minha malandra... tu queres que eu te chame nomes...»
Ela fez que sim com a sua cabecinha suburbana.
E comecei: «Tu és uma desavergonhada...»
E ela, primeiro: «Não.»
E depois, acelerando: «Sou! Sou sim!»
Eu: «Ordinária!»
Ela: «Não... não... não...»
E eu sem estar já à espera, mantendo um bom ritmo de
bombada, entretido comigo mesmo, um bocado nas tintas para ela.
E ela: «O que é que me chamaste?!»
E eu, como se tivesse decorado o nome dum rio: «Ordinária...»
Ela: «Sou! Sou sim! Sou uma ordinária!»
Aqui aproxima-se inexoravelmente — nenhum outro advérbio
serve — da histeria pretendida.
Eu estou quase a vir-me, graças à excitação dela, que me põe
de cabeça perdida. Com uma cabeça daquelas, ainda por cima.
Não tenciono prosseguir. Só rematar.
Mas ela quer mais. Abre as narinas todas, muito mais do que
lhe seria exigido, arregala os olhos e fita-me como se me quisesse
matar: «Sou uma porcalhona!»
Eu, começando a entusiasmar-me, tal o contágio: «És uma
porcalhona que se farta de foder!»
Ela: «Sou! Sou!»
Eu: «Fodelhona!»
Ela: «Mais! Chama-me mais! Trata-me mal que eu venho-me!»
Eu, de cabeça igualmente perdida, incapaz de encontrar mais
sinónimos, ou nomes ainda mais reprováveis, limito-me a um
simples e pouco significativo: «Puta!»
Pára tudo.
Pronto. Já ninguém nesta casa se vai vir.
Ela diz: «Não; isso não.»
Eu, verme: «Desculpa...»
«Não», repete, começando a arranjar a roupa, «Isso é que
não.»
Está mais composta do que no momento em que meti conversa
com ela. O sorte.
Comecei a rir. Foi obra santa, porque perdi o tesão todo.
Perguntei-lhe se havia alguma lista que eu pudesse consultar.
Ela: «Detesto as pessoas que abusam... detesto!» Está à procura
das cuecas, o que lhe retira alguma credibilidade.
E «vaca»? E permitido «vaca»? ou só porca?
Ela, não sei quê, de dar um dedo e tomarem-lhe logo a mão
inteira, ainda não encontrou as cuecas.
Eu acho que a minha casa come cuecas. Chupa-as pelas frestas
entre as tábuas, para dar de comer ao caruncho. Ê uma espécie de
negócio.
«Que é que tens contra as putas? Tenho uma tia que foi puta
quando era nova!» (E tenho).
«Vai chamar puta à tua mãe!» Está zangada. Porque é que as
mulheres não têm cuidado com as cuecas, elas que são tão
obcecadas por tudo o mais?
«Não, deixa — já percebi. A ti devo tratar-te por porcalhona,
ordinária e fodelhona, mas se quiser tratar alguém por puta devo
entrar em contacto com a senhora minha mãe, apesar da senhora
minha mãe saber a todas as horas do dia, onde param as suas
cuecas — ou, melhor, as cuecas dela...»
Ela veste os «jeans» sobre o rabo nu. Rabo bom. Pena.
Podíamos ter sido amigos. Podíamos ter sido... partenaires!
Sai de minha casa e lembra-se que não tem dinheiro para o
táxi.
Bate fortemente.
«Para aonde será desta vez?», pergunto eu, arrastando-me
para a porta. «Para que subúrbio longínquo?» Tenho de começar a
andar com raparigas aqui do centro...
E para longíssimo. Dois contos. Toma que é para aprenderes.
Ela recebe o dinheiro como se fosse um direito humano.
«Amanha pago-te.»
E eu não resisto a dar uma facadinha também: «Deixe lá... não
tem importância...»
in "O amor é fodido" - Miguel Esteves Cardoso












