Amor é...?
domingo, 30 de novembro de 2008
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
terça-feira, 25 de novembro de 2008
sábado, 22 de novembro de 2008
Porque sou uma rapariga que se acostuma....

Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E, porque não tem vista,
logo se acostuma a não olhar para fora.
E, porque não olha para fora,
logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas,
logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol,
esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado
porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra,
aceita os mortos e que haja números para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.
E, não acreditando nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone:
hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer fila para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagar mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes.
A abrir as revistas e ver anúncios.
A ligar a televisão e assistir a comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado,
lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir passarinho,
a não ter galo de madrugada,
a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé,
a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber,
vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali,
uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio,
a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada,
a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer
a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito
porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,
para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar,
se perde de si mesma.
(1972)
p.s: tks Cláudia
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
«Queres que eu te chame nomes?»
Ela corou. Juro.
Eu repeti, na voz que se usa com crianças muito novas e que
todas as raparigas apreciam nesta ou naquela outra altura das suas
vidas:
«Minha malandra... tu queres que eu te chame nomes...»
Ela fez que sim com a sua cabecinha suburbana.
E comecei: «Tu és uma desavergonhada...»
E ela, primeiro: «Não.»
E depois, acelerando: «Sou! Sou sim!»
Eu: «Ordinária!»
Ela: «Não... não... não...»
E eu sem estar já à espera, mantendo um bom ritmo de
bombada, entretido comigo mesmo, um bocado nas tintas para ela.
E ela: «O que é que me chamaste?!»
E eu, como se tivesse decorado o nome dum rio: «Ordinária...»
Ela: «Sou! Sou sim! Sou uma ordinária!»
Aqui aproxima-se inexoravelmente — nenhum outro advérbio
serve — da histeria pretendida.
Eu estou quase a vir-me, graças à excitação dela, que me põe
de cabeça perdida. Com uma cabeça daquelas, ainda por cima.
Não tenciono prosseguir. Só rematar.
Mas ela quer mais. Abre as narinas todas, muito mais do que
lhe seria exigido, arregala os olhos e fita-me como se me quisesse
matar: «Sou uma porcalhona!»
Eu, começando a entusiasmar-me, tal o contágio: «És uma
porcalhona que se farta de foder!»
Ela: «Sou! Sou!»
Eu: «Fodelhona!»
Ela: «Mais! Chama-me mais! Trata-me mal que eu venho-me!»
Eu, de cabeça igualmente perdida, incapaz de encontrar mais
sinónimos, ou nomes ainda mais reprováveis, limito-me a um
simples e pouco significativo: «Puta!»
Pára tudo.
Pronto. Já ninguém nesta casa se vai vir.
Ela diz: «Não; isso não.»
Eu, verme: «Desculpa...»
«Não», repete, começando a arranjar a roupa, «Isso é que
não.»
Está mais composta do que no momento em que meti conversa
com ela. O sorte.
Comecei a rir. Foi obra santa, porque perdi o tesão todo.
Perguntei-lhe se havia alguma lista que eu pudesse consultar.
Ela: «Detesto as pessoas que abusam... detesto!» Está à procura
das cuecas, o que lhe retira alguma credibilidade.
E «vaca»? E permitido «vaca»? ou só porca?
Ela, não sei quê, de dar um dedo e tomarem-lhe logo a mão
inteira, ainda não encontrou as cuecas.
Eu acho que a minha casa come cuecas. Chupa-as pelas frestas
entre as tábuas, para dar de comer ao caruncho. Ê uma espécie de
negócio.
«Que é que tens contra as putas? Tenho uma tia que foi puta
quando era nova!» (E tenho).
«Vai chamar puta à tua mãe!» Está zangada. Porque é que as
mulheres não têm cuidado com as cuecas, elas que são tão
obcecadas por tudo o mais?
«Não, deixa — já percebi. A ti devo tratar-te por porcalhona,
ordinária e fodelhona, mas se quiser tratar alguém por puta devo
entrar em contacto com a senhora minha mãe, apesar da senhora
minha mãe saber a todas as horas do dia, onde param as suas
cuecas — ou, melhor, as cuecas dela...»
Ela veste os «jeans» sobre o rabo nu. Rabo bom. Pena.
Podíamos ter sido amigos. Podíamos ter sido... partenaires!
Sai de minha casa e lembra-se que não tem dinheiro para o
táxi.
Bate fortemente.
«Para aonde será desta vez?», pergunto eu, arrastando-me
para a porta. «Para que subúrbio longínquo?» Tenho de começar a
andar com raparigas aqui do centro...
E para longíssimo. Dois contos. Toma que é para aprenderes.
Ela recebe o dinheiro como se fosse um direito humano.
«Amanha pago-te.»
E eu não resisto a dar uma facadinha também: «Deixe lá... não
tem importância...»
in "O amor é fodido" - Miguel Esteves Cardoso
Ela corou. Juro.
Eu repeti, na voz que se usa com crianças muito novas e que
todas as raparigas apreciam nesta ou naquela outra altura das suas
vidas:
«Minha malandra... tu queres que eu te chame nomes...»
Ela fez que sim com a sua cabecinha suburbana.
E comecei: «Tu és uma desavergonhada...»
E ela, primeiro: «Não.»
E depois, acelerando: «Sou! Sou sim!»
Eu: «Ordinária!»
Ela: «Não... não... não...»
E eu sem estar já à espera, mantendo um bom ritmo de
bombada, entretido comigo mesmo, um bocado nas tintas para ela.
E ela: «O que é que me chamaste?!»
E eu, como se tivesse decorado o nome dum rio: «Ordinária...»
Ela: «Sou! Sou sim! Sou uma ordinária!»
Aqui aproxima-se inexoravelmente — nenhum outro advérbio
serve — da histeria pretendida.
Eu estou quase a vir-me, graças à excitação dela, que me põe
de cabeça perdida. Com uma cabeça daquelas, ainda por cima.
Não tenciono prosseguir. Só rematar.
Mas ela quer mais. Abre as narinas todas, muito mais do que
lhe seria exigido, arregala os olhos e fita-me como se me quisesse
matar: «Sou uma porcalhona!»
Eu, começando a entusiasmar-me, tal o contágio: «És uma
porcalhona que se farta de foder!»
Ela: «Sou! Sou!»
Eu: «Fodelhona!»
Ela: «Mais! Chama-me mais! Trata-me mal que eu venho-me!»
Eu, de cabeça igualmente perdida, incapaz de encontrar mais
sinónimos, ou nomes ainda mais reprováveis, limito-me a um
simples e pouco significativo: «Puta!»
Pára tudo.
Pronto. Já ninguém nesta casa se vai vir.
Ela diz: «Não; isso não.»
Eu, verme: «Desculpa...»
«Não», repete, começando a arranjar a roupa, «Isso é que
não.»
Está mais composta do que no momento em que meti conversa
com ela. O sorte.
Comecei a rir. Foi obra santa, porque perdi o tesão todo.
Perguntei-lhe se havia alguma lista que eu pudesse consultar.
Ela: «Detesto as pessoas que abusam... detesto!» Está à procura
das cuecas, o que lhe retira alguma credibilidade.
E «vaca»? E permitido «vaca»? ou só porca?
Ela, não sei quê, de dar um dedo e tomarem-lhe logo a mão
inteira, ainda não encontrou as cuecas.
Eu acho que a minha casa come cuecas. Chupa-as pelas frestas
entre as tábuas, para dar de comer ao caruncho. Ê uma espécie de
negócio.
«Que é que tens contra as putas? Tenho uma tia que foi puta
quando era nova!» (E tenho).
«Vai chamar puta à tua mãe!» Está zangada. Porque é que as
mulheres não têm cuidado com as cuecas, elas que são tão
obcecadas por tudo o mais?
«Não, deixa — já percebi. A ti devo tratar-te por porcalhona,
ordinária e fodelhona, mas se quiser tratar alguém por puta devo
entrar em contacto com a senhora minha mãe, apesar da senhora
minha mãe saber a todas as horas do dia, onde param as suas
cuecas — ou, melhor, as cuecas dela...»
Ela veste os «jeans» sobre o rabo nu. Rabo bom. Pena.
Podíamos ter sido amigos. Podíamos ter sido... partenaires!
Sai de minha casa e lembra-se que não tem dinheiro para o
táxi.
Bate fortemente.
«Para aonde será desta vez?», pergunto eu, arrastando-me
para a porta. «Para que subúrbio longínquo?» Tenho de começar a
andar com raparigas aqui do centro...
E para longíssimo. Dois contos. Toma que é para aprenderes.
Ela recebe o dinheiro como se fosse um direito humano.
«Amanha pago-te.»
E eu não resisto a dar uma facadinha também: «Deixe lá... não
tem importância...»
in "O amor é fodido" - Miguel Esteves Cardoso
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
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